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Somos Memórias

Por: Ana Cristina de Sousa Veras

A matéria-prima da memória são as vivências do presente.” Ana C. Sousa Veras.

Memórias são presente, passado e futuro. Quando dizemos que somos memórias, significa que somos as histórias que escolhemos lembrar — mas essas histórias foram, um dia, experiências vividas no momento presente. Engana-se quem pensa que a memória habita apenas o passado; ela é, sobretudo, um ato do presente. Para ter memórias, é fundamental que eu viva o agora com plenitude. Sem essa entrega, não haverá futuro, porque o futuro é a memória do hoje — e amanhã, para sabermos quem somos, precisaremos das recordações que estamos a construir neste exato instante.

Não somos apenas o somatório passivo daquilo que nos acontece. Somos, fundamentalmente, os curadores da nossa própria história — arquitetos que escolhem, editam e dão sentido às recordações que nos constituem. Sem memória, não saberíamos quem somos; mas a forma como nos relacionamos com ela dita a qualidade do nosso presente e a direção do nosso futuro. Em nós, a memória não é um arquivo morto: é uma tela viva, pintada com as cores vibrantes das emoções, dos filtros afetivos e da busca incessante por significado. E essas telas, longe de serem fixas, funcionam como slides que podem ser constantemente reconfigurados e, por isso, ressignificados. Somos, assim, os autores em permanente revisão da nossa própria narrativa.

A viagem pelas memórias — sobretudo as do passado — raramente começa de forma consciente ou lógica. Na maioria das vezes, somos abduzidos por uma recordação muito antes de a mente racional conseguir compreender o que nos atingiu. Quantas vezes fomos transportados pelo cheiro a terra molhada ou a café acabado de fazer, devolvidos num instante à cozinha mágica da infância? Quantas vezes uma melodia na rádio nos arrebatou até ao encontro do primeiro amor, fazendo-nos sentir o exato frio na barriga como se a experiência estivesse a acontecer agora? Um simples estímulo sensorial desencadeia uma avalanche de memórias; a música atua como um marcador temporal, capaz de reavivar emoções precisas. Não lembramos apenas o evento — nós revivemos a emoção. Um perfume, um sabor, uma canção abrem uma porta para um tempo que julgávamos esquecido, devolvendo-nos não a fotografia do passado, mas a sua temperatura afetiva. E, por esses breves instantes, recordamos quem somos e do que somos capazes de sentir e realizar.

A neurociência explica esses fenómenos — que mais parecem magia — pela proximidade anatómica: os nossos sentidos têm uma “via verde” direta para o sistema límbico, em particular para a amígdala e o hipocampo, os centros nevrálgicos da emoção e da memória. Não nos limitamos a recuperar dados; reexperienciamos a emoção na sua forma mais crua. E recordar esse passado traz consigo, frequentemente, uma visita da nostalgia. Curiosamente, a palavra foi cunhada no século XVII para descrever uma doença física — a dor profunda e incapacitante que os soldados suíços sentiam por estarem longe de casa. Hoje, a psicologia compreende a nostalgia de forma muito mais luminosa. Em português, chamamos-lhe saudade — e, longe de ser uma patologia, ela atua como um escudo existencial. Nos momentos de incerteza, solidão ou grandes transições, o nosso cérebro recorre a memórias felizes para nos reconfortar e estabilizar. A saudade lembra-nos de que já fomos amados, de que as nossas vidas têm raízes e de que já superámos tempestades no passado. É um abraço quente que nos damos a nós próprios a partir de dentro — uma âncora que nos segura quando o presente parece instável e o medo do futuro nos ameaça, recordando-nos quem somos e de que somos capazes.

As memórias não são fotografias exatas. Elas mudam, adaptam-se e ganham novas cores à medida que nós próprios envelhecemos e amadurecemos. Incrivelmente, o passado amadurece connosco. Aliás, isso é que é amadurecer: o framework da nossa identidade e a edição contínua das nossas vivências, felizes ou traumáticas. Se a vida fosse um filme, a memória não seria a câmara que grava tudo, mas sim o realizador na sala de edição. Cortamos cenas irrelevantes, damos destaque a momentos de triunfo ou de dor aguda, suavizamos erros e enfatizamos lições aprendidas. A nossa identidade pessoal — aquilo que acreditamos ser — depende inteiramente desta narrativa editada. A psicologia chama-lhe o “eu autobiográfico”: organizamos as memórias para que a nossa vida faça sentido. Quem foca as suas recordações nas vezes em que superou adversidades constrói uma identidade resiliente; quem valoriza as descobertas e os mentores que encontrou afina-se como um eterno aprendiz.

Mas é precisamente por este poder — o de reviver a carga emocional exata da vivência original — que as memórias dolorosas, e sobretudo as traumáticas, exigem atenção especial. Quando o trauma ocorre, é como se o realizador ficasse bloqueado na sala de edição, obrigado a repetir a mesma cena angustiante em loop, sentindo o mesmo medo e a mesma dor do momento em que foram gravadas. É semelhante a um arranhão num disco de vinil: a música não consegue avançar porque a agulha fica enganchada, repetindo infinitamente o mesmo fragmento, até que alguém a levante para a faixa seguinte. As memórias traumáticas não podem ser ignoradas; precisam de ser reprocessadas e ressignificadas, pois aprisionam o indivíduo na masmorra da recordação, obrigando-o a reviver todas as dores e ameaças como se fossem uma tortura contínua. É aqui que entra o trabalho fundamental da psicoterapia, com destaque para abordagens como o EMDR. A psicoterapia não apaga a cena nem a intensidade do evento; ajuda o realizador a reprocessar a carga emocional, retirando-lhe o estado paralisante — tal como a mão que levanta a agulha do vinil para que a música continue. O EMDR permite que a memória traumática deixe de ser uma ameaça vivida no presente para se tornar, finalmente, apenas uma página virada, perfeitamente integrada na narrativa maior de sobrevivência e resiliência.

Por isso, podemos afirmar que as memórias são um lugar de visita, não de residência. É inegável que, sem elas, seríamos telas em branco, incapazes de reconhecer o nosso próprio reflexo. Contudo, existe uma linha ténue — e por vezes perigosa — entre honrar o passado e ficar prisioneiro dele. Quando transformamos o passado na nossa morada permanente — idealizando uma “época dourada” que já passou ou remoendo infinitamente feridas antigas — corremos o risco de fechar a porta à própria vida. Passar demasiado tempo de olhos cravados no retrovisor cega-nos para a estrada que se desdobra à nossa frente, para as oportunidades e a beleza que acontecem neste exato momento. O ideal é encarar as nossas recordações como um museu pessoal: entramos, admiramos as obras de arte que são os nossos dias felizes, contemplamos as cicatrizes que nos ensinaram a ser mais fortes, aprendemos com as exposições das nossas falhas. Mas temos de sair pela porta principal. Temos de voltar à rua, sentir o vento no rosto, tocar o mundo real com as próprias mãos — para acionar os sentidos que criam novas memórias.

Chegamos ao grande paradoxo da memória: ela só existe porque, num dado momento do passado, estivemos inteiramente presentes a vivê-la. Se passarmos os dias de olhos postos no que já foi — anestesiados pela saudade ou pelo medo —, roubamos ao nosso eu de amanhã as histórias que ele tanto ansiará contar e reviver. A melhor forma de garantir que teremos memórias ricas, vibrantes e felizes para visitar quando formos mais velhos é ter a coragem de largar as âncoras de ontem e usar o tempo disponível para construir novas histórias hoje. Afinal, a memória não é apenas um tributo ao que já fomos; é o solo fértil onde plantamos quem ainda vamos ser.

Se a dimensão emocional é o coração da memória, importa agora espreitar a sua sala de máquinas: o cérebro humano. Como é que impulsos elétricos e ligações químicas se transformam no cheiro da infância ou na lembrança de um nome? A memória não habita um único “lugar” no cérebro; é uma sinfonia distribuída. Tudo começa com a codificação: quando recebemos estímulos, o cérebro transforma-os em linguagem neuronal. Mas é um editor implacável — descarta a maior parte do que rececionamos, focando-se apenas no que capta a nossa atenção ou desperta a nossa carga emocional. O hipocampo atua como um maestro exigente, decidindo o que merece ser enviado para o armazém de longo prazo no córtex cerebral e o que deve ser esquecido. É por isso que esquecemos onde deixámos as chaves, mas recordamos vividamente um evento emocional de há vinte anos: o valor emocional é a “etiqueta” que o cérebro usa para priorizar o armazenamento. O aspeto mais fascinante — e perturbador — é a reconsolidação. Antigamente, acreditava-se que uma memória, uma vez fixada, era como um livro impresso na mente. Hoje, sabemos que cada vez que recordamos um evento, o cérebro abre esse “ficheiro”, reescreve-o com o contexto atual e guarda-o novamente. Isto significa que a memória não é reprodução, mas reconstrução — a nossa lembrança de um evento de infância não é o original, mas a memória da última vez que o recordámos. E na neuroplasticidade reside a prova de que somos, literalmente, o resultado das nossas memórias: o cérebro altera a sua própria estrutura física com base nas nossas experiências e pensamentos. Quanto às falhas — as falsas memórias, onde o cérebro preenche lacunas com lógica plausível, e o esquecimento —, longe de serem defeitos, são mecanismos de sobrevivência. Um cérebro que se lembrasse de absolutamente tudo seria incapaz de funcionar, soterrado pelo ruído do passado. O esquecimento é a forma de o sistema se manter limpo para que possamos processar o presente.

Vivemos, porém, num tempo sem precedentes em que a memória externa — smartphones, servidores na nuvem, redes sociais — se tornou uma extensão quase orgânica do nosso sistema cognitivo. Se antes a memória era um esforço de retenção interna, hoje é, muitas vezes, um ato de curadoria externa. Mas será que ao “terceirizarmos” as nossas lembranças, nos tornamos mais eficientes, ou estamos a perder a capacidade de memorizar a própria vida? Este fenómeno, estudado pela psicologia, é conhecido como o “Google Effect”: a tendência para esquecer informações que sabemos que podemos encontrar facilmente online. O cérebro, economizador de energia, prioriza o “onde encontrar” em detrimento do “o quê recordar”. O problema é que, ao delegarmos o arquivo à tecnologia, corremos o risco de delegar também a carga de significado. Uma fotografia guardada numa galeria digital infinita e nunca mais revisitada não ocupa o mesmo espaço emocional que uma memória processada, narrada e sedimentada no nosso “eu” autobiográfico. Isto porque a máquina processa a sintaxe do mundo; recebe dados e devolve resultados estáticos, imune ao tempo e à finitude. Mas o cérebro humano está longe de ser um arquivo frio e objetivo. A inteligência artificial não tem o processamento do sentir — e, no ser humano, o sentir vem antes do pensar. A nossa biologia dita que a emoção desperta frações de segundo antes de a razão formular uma ideia. Por isso, ressignificando o famoso axioma de Descartes, a nossa verdadeira condição fundadora é: “Sinto e penso, logo existo”. O nosso existir — no sentido pleno de ser memória e ter identidade — é indissociável da emoção.

A nossa memória e identidade processam-se numa tríade fundamental: Experimentar — a captação dos estímulos pelos sentidos, a imersão total no mundo através do corpo, o choque visceral com a realidade, que acontece na pele que se arrepia com uma melodia ou no aroma que conforta; Processar — a alquimia do significado, onde pegamos no caos vibrante do sentir e o convertemos em sentido, no momento mágico em que o “sinto” se cruza com o “penso” para edificar o “eu”; e Expressar — o salto que nenhuma máquina pode simular, onde empurramos a memória processada de volta para o mundo através da arte, de um olhar, da literatura, de uma receita especial com o tempero do afeto, ou de um singelo abraço. Essa tríade explica o paradoxo do fotógrafo: já sentiu que, ao tentar captar o momento perfeito com o smartphone, acabou por não vivenciar o evento na sua plenitude? Quando estamos focados em registar, o cérebro entra num modo de observador externo, não de participante. A atenção fragmentada retira a profundidade sensorial de que o hipocampo precisa para transformar a experiência numa memória duradoura. Quanto mais registamos digitalmente, menos recordamos profundamente. A tecnologia dá-nos um registo visual perfeito, mas a vivência humana depende da presença plena. Contudo, a tecnologia não é a inimiga da memória — o seu uso irracional é que pode gerar um estado de amnésia. Se nos apoiarmos apenas em registos digitais imutáveis, corremos o risco de cristalizar memórias e deixar a nossa identidade estática, esquecendo que a memória humana precisa de ser dinâmica e reescrita pelo tempo. O desafio desta era é usar os suportes digitais como ferramentas de apoio, não como substitutos da experiência. Devemos continuar a ser os protagonistas das nossas histórias, usando os ecrãs para ver o mundo, e não para nos escondermos dele.

Chegamos, assim, ao desfecho inevitável: a memória só é possível porque, num momento fugaz que já lá vai, estivemos inteiramente entregues a vivê-la. Se passarmos os dias de olhos cravados no retrovisor do passado ou hipnotizados pelos ecrãs digitais, roubamos ao nosso eu de amanhã as histórias que ele tanto há de aspirar contar. Para garantirmos um futuro repleto de recordações vibrantes, precisamos da coragem sublime de largar as âncoras de ontem e mergulhar de corpo e alma no agora — porque a matéria-prima da memória é viver o presente. A memória é o fio condutor que nos prende ao nosso eu de ontem e a bússola que orienta as decisões do nosso eu de amanhã. Ela é, ao mesmo tempo, a tela onde pintamos a nossa identidade e o museu onde guardamos as nossas conquistas e cicatrizes. Mas a sua matéria-prima é o presente — cada momento vivido com plena atenção, cada abraço sentido, cada palavra verdadeiramente ouvida. Ao honrarmos as recordações que nos compõem sem nos tornarmos reféns delas, abraçamos a nossa humanidade mais profunda. E ao termos a coragem de largar o passado o tempo suficiente para construir novas histórias hoje, garantimos que o amanhã terá memórias dignas de serem visitadas. Porque, no fundo, não somos apenas aquilo que vivemos; somos aquilo que escolhemos lembrar — e, mais importante, aquilo que escolhemos viver agora para recordar.