A Génese do Sentir
Autora: Ana Cristina de Sousa Veras
Lembra-te da última vez em que um olhar provocou aquele frio na barriga, ou do instante em que uma simples memória do teu filho inundou o teu peito com uma onda avassaladora de afeto. É quase instintivo atribuirmos a posse dessas emoções ao “Outro” — como se ele fosse o dono do que sentimos e nós, meros espectadores passivos da sua influência. No entanto, a verdade é simultaneamente mais profunda e subversiva: o ato de sentir é, antes de mais, um fenómeno intransferível do sujeito que sente. O outro é o catalisador, mas a vibração e a autoria do sentir são inteiramente tuas.
Quando amas alguém, quem vibra é o teu corpo, que reage à química interna da paixão; quem expande o peito é a tua alma, que encontra no amor um propósito de ligação. O outro é o referencial, a faísca que desperta o fogo. Mas a capacidade magnífica de amar? Essa é uma potência que reside, desde a génese, no teu próprio ser. Atribuir ao outro a causa absoluta do que sentes é confundir quem és com a imagem refletida no espelho.
Compreender que o outro é o referencial, e não o proprietário do teu sentimento, transforma radicalmente a tua experiência existencial. Essa transformação ganha contornos muito práticos quando olhamos para as nossas relações mais íntimas. No amor romântico, por exemplo, quando a chama é correspondida, estabelece-se uma dança bela e recíproca. Mas e quando a dança não é partilhada? O sofrimento, nestes cenários, nasce quase sempre da ilusão de que o outro nos “levou” o amor ou de que fomos esvaziados por ele.
A verdade libertadora é que o que sentes permanece contigo, intacto. O verdadeiro prazer não está na validação externa, mas na própria exuberância da tua capacidade de te conectares. Basta uma réstia de memória para que o sentir seja acionado novamente, pois ele é uma marca indelével da tua paisagem interior. A correspondência, ou a sua falta, não acrescenta nem subtrai à essência do que sentes; é apenas uma camada narrativa que se sobrepõe à tua experiência. Quando assumes que a génese do sentir é tua, recuperas o teu poder. O teu amor não precisa da permissão ou do reflexo do outro para ser real, legítimo e magnificente.
Se esta autonomia emocional nos liberta nas paixões amorosas, a dinâmica entre o sentir e o catalisador torna-se ainda mais evidente — e carregada de paradoxos — no amor incondicional filial, possivelmente o mais sublime e desafiador de todos os sentimentos. Muitas vezes dizemos que sentimos amor incondicional “pelo” filho ou filha. Esse amor é tão profundo e intenso que a sensação é simultaneamente de completude e de expansão — como se o coração estivesse prestes a explodir, num verdadeiro Big Bang particular. Chega a ser difícil de descrever em palavras, mas é imediatamente compreendido por quem já o experimentou. Perante este sentir colossal, a única lamentação costuma ser a de não os termos tido antes nas nossas vidas. É a expressão máxima da nossa capacidade de nos entregarmos sem reservas, de projetarmos no outro a continuidade da nossa própria humanidade — algo que se cristaliza na derradeira premissa: “Eu daria a minha vida pela do meu filho”.
E é exatamente por isso que amar incondicionalmente e educar formam uma tarefa tão árdua. Para orientar o desenvolvimento de um filho, somos forçados a frustrá-lo, a impor limites que o ajudem a amadurecer e a exercitar a sua própria autonomia. A grande e cruel beleza de amar e educar reside neste dilema: o embate entre o impulso inicial do amor incondicional, que nos habita e anseia acolher, proteger e poupar o filho de qualquer dor, e a exigência madura do amor consciente, que pede a coragem de contrariar esse impulso afetivo imediato em prol do crescimento do outro. Amar incondicionalmente é preparar o filho ou filha para viver sem nós, é prepará-los para os libertar. Por isso, educar é, muitas vezes, suportar a angústia de ver o outro tropeçar para que ele aprenda a erguer-se por si próprio.
É no confronto com os limites que o filho — e nós próprios — descobrimos a profundidade do que sentimos. O filho ou filha torna-se o referencial máximo, não para preencher um vazio, mas para nos revelar a imensidão da nossa capacidade de autotranscendência. Perante a sua existência, a única resposta honesta e plena é a gratidão:
“Agradeço por existires nesta mesma época que eu, por me desafiares a ir além do meu próprio ego, e por me proporcionares o privilégio de exercer o meu sentir na sua forma mais pura, despertando o que há de mais divino em mim: a capacidade de amar incondicionalmente.”
Este despertar contínuo mostra-nos que o ato de sentir extrapola os laços familiares ou românticos; ele espalha-se por cada fragmento de quem somos. A génese do sentir atua, assim, como a bússola essencial da tua jornada. É por isso que, na psicoterapia, a pergunta mais recorrente e transformadora é: “O que estás a sentir sobre isso?”. Seja amor, raiva, tristeza ou alegria, o que sentes é o princípio fundador da tua própria existência; é o fio condutor que te insere na devida e inalienável importância de Ser. Sentir não é um efeito colateral do mundo; é a resposta primária da tua essência e a força criadora da tua realidade.
Contudo, este sentir humano está longe de ser um evento isolado, uma mera fatalidade do acaso ou uma reação automática em frações de segundo. Na verdade, ele é uma viagem íntima, sofisticada e extraordinariamente complexa que atravessa diferentes camadas do nosso ser. É um processo de “alquimia” interior que transforma a biologia em significado e o significado em sabedoria, evoluindo através de quatro dimensões fundamentais.
A primeira dimensão é a da sensação física. Tudo começa na biologia. Antes de o sentimento ter um nome, ele tem um impacto corporal. O nosso corpo atua como um radar sensível, a nossa interface primordial com o mundo. Quando somos expostos a um estímulo, o corpo reage instantaneamente: o coração acelera, as palmas das mãos suam, o estômago contrai-se ou o peito expande-se. Nesta primeira etapa, não há linguagem nem julgamento; há apenas dados crus, reações elétricas e químicas. É a fundação do sentir: a prova tangível de que estamos vivos e a interagir com a realidade.
Imediatamente após este alarme físico, a mente entra em cena para tentar organizar o caos, levando-nos à segunda dimensão: a racionalização. O cérebro capta as alterações corporais e pergunta-se o que significa aquele batimento cardíaco acelerado ou aquele tremor. A mente começa a vasculhar o seu imenso arquivo de memórias, crenças, traumas e aprendizagens passadas para tentar traduzir e processar a sensação física bruta. Tentamos justificar as causas e compreender a lógica por trás daquela reação mecânica do corpo.
Após este esforço de racionalização, entramos na terceira dimensão, que é a da identificação das situações e dos sentimentos que elas provocam. Aqui, o processo ganha contornos definidos. É o momento em que conectas o gatilho externo à tua emoção interna, catalogando a experiência. Se o coração acelerou à beira de um precipício, identificas a situação como perigosa e o sentimento como “medo”. Se acelerou ao ver uma atitude fria de alguém, identificas a rejeição e o sentimento como “tristeza” ou “raiva”. Damos, finalmente, um nome definitivo à narrativa da nossa dor ou alegria.
Por fim, a jornada atinge o seu clímax e o seu verdadeiro propósito quando alcança a quarta dimensão: a consciência do sentir. Esta consciência atua exatamente como uma quarta dimensão espacial e temporal: ela está acima, a observar e a processar o conjunto das três dimensões anteriores. Estar nesta dimensão é ter o distanciamento necessário para não ser engolido pela emoção, assumindo o lugar do “Observador Interno”. Mais do que apenas observar, esta quarta dimensão devolve-te o poder de escolha. É onde avalias se o que estás a sentir te faz bem ou se é prejudicial, decidindo de forma lúcida se queres manter esse padrão ou se algo deve mudar. Se o sentimento for destrutivo, a Consciência questiona o que deve ser mudado — na perceção, no ambiente ou nas atitudes — para que possas sentir de forma diferente.
Na consciência do sentir, a dor transforma-se em sabedoria, o impulso transforma-se em escolha e a paixão eleva-se a amor maduro. Quando, enfim, interiorizamos esta verdade e atingimos essa quarta dimensão onde percebemos que o sentir é uma potência residente no nosso próprio ser, a cobrança e a expectativa desfazem-se como nevoeiro ao sol. Deixamos de exigir que o outro performe de acordo com os nossos desejos ou que reaja exatamente como idealizamos. Mais do que isso: deixamos de nos lamentar sobre como deveriam ter sido aqueles que passaram nas nossas vidas — pais, irmãos, amigos, colegas, cônjuges — e passamos a olhar para tudo o que eles nos proporcionaram sentir, reconhecendo como essas emoções moldaram a nossa existência. Em vez de condicionarmos o nosso afeto à performance alheia, passamos a agradecer pelo mero encontro de trajetórias. A gratidão emerge, não porque o outro nos deu algo, mas porque a sua existência serviu de nascente para descobrirmos a imensidão que já habitava em nós.
Sentir é o que há de mais humano e grandioso em ti. É a prova viva de que és solo fértil, pronto a germinar. O outro é o vento que traz a semente ou a chuva que a rega, mas a árvore que desabrocha — com todas as suas raízes profundas, flores efémeras e frutos saborosos — é, desde a génese até ao último outono, a expressão inconfundível de quem tu és.
Sentir é o êxtase da experiência de Ser humano.

